O sonho do arquiteto indiano Charles Correa e seu Mills Development Plan virou um pesadelo: todas as ruínas das antigas fábricas de Mumbai, sua cidade natal, estão virando torres de condomínio e shopping centers. Esse projecto aposta numa outra verticalidade: um microclima que vai arrefecer o que restou das fábricas com uma arquitectura atmosférica. Um edifício-vapor. Uma nuvem que paira, para sempre, sobre as ruínas expectantes de Parel, um bairro histórico no centro da cidade.

Nossa proposta ecoa o espírito livre dos anos 1950 e 1960. Foi então que Thomas C. Howard e Buckminster Fuller propuseram um novo microclima para uma área ao sul do Central Park, em Manhattan. Sob a proteção de uma cúpula com três quilómetros de diâmetro, os nova-iorquinos não mais sentiriam a inconveniência do frio ou do calor extremos.

Instalados dentro do vazio das indústrias, nos Arranha-céus de Ar de Mumbai o clima será modulado para espaços menos quentes e menos poluídos. Um paisagismo de figueiras portentosas cria sombras e define vazios gerados pela monumentalidade dessas árvores. O outro  elemento são as centenas de nebulizadores de alta pressão que emitem névoa e baixam a temperatura ambiente. Um sistema de sensores lê a temperatura e a umidade relativa do ar externas, ajustando-as de acordo com as variações atmosféricas percebidas. Correntes artificiais, barreiras térmicas invisíveis e radiações vão baixar a temperatura para 21ºC; tudo criando um interior climatizado do tamanho de um parque.

De acordo com o dia ou o feriado, a neblina pode ter nuances cromáticas. No dia da Independência, cor de açafrão. No dia de Ganesh Chaturthi, cor de laranja e amarelo. No dia da árvore, verde. No dia do Holi, todas as cores.

Visto de longe, nosso arranha-céu será percebido apenas pela sua neblina. As arestas do prédio invisível serão tão discretas quanto a cúpula de Buckminster. Leves, altas, ingrávidas. Ao invés dos shopping centers, um vazio refrigerado e brumoso. No lugar de condomínios murados, um paralelepípedo de ar e umidade. Como um manifesto pelos últimos vazios de Parel, eternamente protegidos pelas arestas e pelas correntes de ar frio. E plenos de anticonstrução.

Uma reserva onde todos fazem o que bem quiserem: áreas livres para a prática da preguiça, do lazer, do críquete, dos domingos, das segundas-feiras. Um maidan ocupado, exclusivamente, por neblina e figueiras majestosamente monumentais. E, naturalmente, usado pelos mumbaikars sedentos de áreas livres.

Arranha-céu de Ar em Mumbai foi desenhado como conclusão da tese de doutorado do arquiteto Carlos M Teixeira, “Espaços Colaterais: subsídios para imaginar os novos vazios de Mumbai”. Ela foi desenvolvida na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP) sob orientação dos professores doutores Jorge Figueira e Teresa Cálix.
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Arranha-céu 1
Local: antiga India United Mills 2 e 3
Endereço: Tanaji Malusare Rd. / Tukaram Bhikaji Kadam Marg / GD Ambekar Marg

Arranha-céu 2
Local: antiga Apollo Mills
Endereço: Minerva Rd. / Lodha Rd.

Arranha-céu 3
Local: antiga India United Mills 1
Endereço: Palav Marg/ Lalbaug Flyover