Há no Porto um mundo inexplorado: os chamados jardins secretos no interior dos seus quarteirões. Marca obscura da cidade, tais vazios urbanos são ainda mais surpreendentes dada a localização de vários deles em área central, principalmente nos bairros de Santo Ildefonso e Cedofeita. Ou seja, o Porto tem espaços recônditos e ignorados em pleno centro histórico e em quarteirões que possuem valores culturais e ambientais totalmente desconhecidos pelos portuenses. E tais valores também devem fazer parte da memória artística e imaterial da cidade através de uma rede pedonal infiltrante.

É preciso registar esta condição sabidamente efêmera: com a requalificação do Centro ocorrendo em ritmo galopante na última década, mais cedo ou mais tarde esses vazios serão objeto de uma visão utilitarista (possivelmente) desrespeitosa para com a memória destes interiores de quarteirão. Em pareceria com os arquitetos do Anarchlab, Vazio S/A propôs duas abordagens para estes jardins que refletem trabalhos e pesquisas anteriores do escritório:

Paisagismo do Abandono: uma abordagem que explore a condição entrópica dos interiores de quadra. Ao invés de tentarmos costurar os diversos interesses de cada um dos proprietários dos imóveis em uso, uma estratégia inversa: mapear os lotes sem qualquer atividade. Como forma de registo desse abandono, os lotes terão suas espécies vegetais catalogadas e organizadas. Complementa essa abordagem a realização de um paisagismo efêmero que utiliza não as espécies ornamentais dos jardins secretos, mas sim as mesmas ervas daninhas presentes nos jardins abandonados, ou um paisagismo ruderal.

Ocupações Desconhecidas. Estes vazios na verdade podem estar habitados: por matos, capins, insetos e mamíferos, e quem sabe por horticultores, sem-abrigos e outros agentes não-mapeados da cidade. E de fato estão: tivemos a oportunidade de conhecer um senhor que plantou uma espécie de “rede informal de hortas” em vários lotes dentro de um quarteirão na Rua do Almada. António Silva (nome alterado, por proteção) é o Pirata Rural (alcunha real, por orgulho). Há largos anos que ocupa partes de diferentes lotes vazios no interior do quarteirão da Escola Académica, a que acede por passagem no perímetro e depois por espaços abertos entre muros em ruínas, com atividades agrícolas que rega com a água de poço de um dos lotes. António vai construindo a sua rede de lote em lote, como se fez a cidade. A relevância dos seus jardins e hortas secretas é tal que, quando recentemente descoberto um desses espaços num lote em reabilitação pelos Anarchlab, foi pedido ao Pirata Rural (pelo novo proprietário, um ex-hippie australiano) que ficasse como landscape architect.

Hortas secretas como esta são apenas um dos eventos passíveis de serem descobertos ao longo do trabalho e comprovam que certamente há um universo real de estórias e espaços fascinantes naqueles locais. O registo de usos e contra-usos, jardins e capins, eventos e estórias é o tema dessa pesquisa.

Proposta apresentada pelo Vazio S/A e Anarchlab para o programa de apoio às artes Criatório 2018, da Câmara do Porto.