
Foto: Phillipe Guimarães – Cortejo Beiço do Wando pela avenida Brasil
O Carnaval de Belo Horizonte em 2026 reafirma algo que vai muito além da festa: a potência da circulação de pessoas como instrumento de descoberta e de criação de conexões com a cidade. Quando milhares de pessoas ocupam as ruas, caminham por diferentes bairros e percorrem trajetos pouco usuais, a capital mineira se revela sob novas perspectivas — especialmente no que diz respeito à sua arquitetura e seu traçado urbano.
Mais do que cenário para desfile de blocos e encontros, Belo Horizonte se transforma em uma experiência urbana expandida. O deslocamento coletivo é responsável por revelar fachadas, evidenciando detalhes construtivos e ressignificando espaços que, na rotina, muitas vezes passam despercebidos.

Cortejo do Bloco Corte Devassa percorre vias tradicionais do bairro Floresta, na região central – Foto Leo Salvo
A arquitetura que se descobre a pé
Fundada no final do século XIX com um traçado planejado, Belo Horizonte possui uma lógica urbana singular. Seu desenho ortogonal, os quarteirões bem definidos e as amplas avenidas favorecem a leitura espacial — mas essa leitura só se completa na escala humana.
Durante o Carnaval, quando o fluxo de pedestres se intensifica, a cidade dos carros desacelera. E é nesse ritmo que a arquitetura começa a se revelar, evidenciando:
- A composição das fachadas no hipercentro;
- A convivência entre edifícios modernistas e construções ecléticas;
- Os traços art decó;
- Os detalhes de varandas, gradis e revestimentos;
- A presença marcante das esquinas e dos encontros de vias;
O que no cotidiano é apenas passagem, torna-se percurso.
A circulação ampliada cria trajetos que atravessam diferentes camadas históricas da cidade. Ao caminhar entre bairros, percebemos com clareza a transição entre escalas, estilos e períodos construtivos. Nesse movimento coletivo e até então despretensioso, a cidade deixa de ser fragmentada e passa a ser compreendida como um sistema integrado.
O Carnaval de 2026 intensifica esse fenômeno ao expandir a ocupação para além dos eixos mais tradicionais. Áreas que nem sempre estão no circuito cotidiano ganham visibilidade — e, com isso, ampliam o repertório dos moradores e também dos visitantes. Blocos tradicionais da cidade estabelecem seus percursos pensando justamente na experiência imersiva que será oferecida ao público.
Quando a cidade é experimentada dessa forma, a arquitetura e o urbanismo deixam de ser panos de fundo e passam a ser elementos ativos da vivência urbana.

Bloco Seu Vizinho desfila pela avenida Mem de Sá, no Aglomerado da Serra – Foto: Pablo Bernardo
Reconhecer para valorizar
À medida que mais pessoas percorrem e observam a cidade, cresce também o reconhecimento de seu patrimônio construído. O edifício deixa de ser apenas parte da paisagem e passa a ser referência, memória, identidade.
Esse reconhecimento é fundamental para a valorização e preservação. É difícil proteger o que não se conhece. A circulação amplia o olhar — e o olhar atento fortalece o pertencimento.
Uma cidade que se revela no movimento
O Carnaval de Belo Horizonte em 2026 evidencia que a cidade ganha novas camadas de significado quando é intensamente percorrida. A experiência coletiva de caminhar, ocupar e permanecer transforma não apenas o uso do espaço, mas também a forma como enxergamos sua arquitetura.
Mais do que deslocamento: um exercício de percepção urbana
Agora que chegamos ao final da festa, fica a pergunta: como manter viva essa disposição de caminhar e observar a cidade ao longo do ano?
Porque, no fundo, Belo Horizonte sempre esteve ali — com sua arquitetura, suas histórias e suas escalas.
O que muda é o quanto estamos dispostos a percorrê-la.