Baixios
de Viadutos
ASF-Brasil + PUC MInas + Pastoral de
Rua de BH
Flávio
Agostini, Luciana Miglio, Carlos M Teixeira
1.
Viadutos são enormes devoradores e desestruturadores de
espaço. Em cidades planejadas para o automóvel como Los
Angeles, mais de um terço da mancha urbana é consumida por
vias expressas e quase dois terços do seu centro são ocupados
por ruas, passagens livres, estacionamentos e garagens. Nas cidades brasileiras
de densidades mais altas, as intervenções públicas
têm buscado resolver, erroneamente, muito mais as demandas do transporte
privado do que o transporte público, o que trouxe como conseqüência
intervenções urbanas desajeitadas e a destruição
de muitos vazios urbanos antes importantes. É por isso que os viadutos
das capitais brasileiras são quase sempre monstros urbanos que
não guardam nenhuma ligação com a cidade e, por isso,
são também grandes desestruturadores de quarteirões
ou mesmo bairros inteiros.
2.
Como se sabe, as grandes cidades brasileiras têm, nas áreas
que pertencem ao setor público, um reservatório de terrenos
ociosos sujeitos a ocupações pela população
de baixa renda e muitas vezes por setores da economia formal. Geralmente,
essas áreas são invadidas devido à ausência
de controle das administrações públicas, à
conivência das prefeituras com certos usos ilegais e/ou devido à
impossibilidade de planejar a cidade frente às pressões
do crescimento da cidade informal. O objetivo básico do projeto
“Baixios de Viadutos” é lançar um plano de programas
– com fins de implementação real – para uma
parcela específica dessas áreas ociosas nunca vistas como
locais com potencial de ocupação planejada. Estas são
as áreas lindeiras aos doze viadutos e seis passarelas de pedestres
ao longo dos dezoito quilômetros de extensão da Via Expressa
Leste-Oeste, uma das principais vias arteriais da grande BH e que conecta
o município de Belo Horizonte ao município de Betim.
Os objetivos mais específicos do projeto são:
1. testar
a viabilidade econômica e social das intervenções
físico-ambientais nos baixios de viadutos;
2. procurar reinserir os baixios no tecido urbano como áreas socialmente
úteis ao reincorporar a população dos ex-moradores
de viadutos no plano de usos;
3. demonstrar ao poder público que áreas ociosas devem,
necessariamente, ser objeto de planejamento e ter funções
claras para que sejam integradas funcional e socialmente à cidade
formal;
4. utilizar a infra-estrutura instalada das regiões centrais como
alavancadora de novas densidades e programas, potencializando ocupações
que sejam próprias das regiões metropolitanas brasileiras;
5. aceitar a informalidade urbana das grandes cidades como ponto de partida
de projeto.
3.
Viadutos urbanos e passarelas são componentes da infra-estrutura
urbana, atendendo prioritária e quase exclusivamente à circulação
de veículos, servindo de transposição de fundos de
vales, vias férreas, cruzamentos de vias, etc. Um olhar mais atento
sobre estes componentes revela que, além destas funções,
eles propiciam, através de suas características espaciais
e construtivas, o surgimento de áreas intersticiais e marginais
livres. Entretanto, como não são contempladas no planejamento
funcional, estas áreas são ocupadas informalmente e de maneira
precária. O foco desse projeto é a incorporação
à cidade dessas áreas e a reincorporação da
população que, por mais de duas décadas, tem utilizado
os viadutos para garantia de subsistência e de inserção,
mesmo que periférica, na economia e na sociedade urbana.
Muitos viadutos que formam o objeto desta proposta assumem contornos diversos
consoantes à localização, origem e características
físico-ambientais das áreas residuais urbanas, bem como
em relação aos usos e agentes que delas se apropriaram.
No entanto, todos eles apresentam em comum o potencial de requalificação
de áreas vazias significativas da cidade, o que pode se dar a partir
de intervenções urbanísticas para atribuir-lhes funções
úteis à sociedade e assegurar-lhes as condições
de desempenho de acordo com o potencial de uso de cada um deles. São
várias as visões a respeito dos usos possíveis nestes
locais e seu agenciamento. Existe, entretanto, um ponto que unifica estes
pensamentos e a partir do qual pode ser formulado um consenso: a necessidade
de evitar que estes espaços fiquem ociosos, pois de fato eles nunca
permanecerão como tal.
4.
Os programas do projeto foram delineados a partir da produção
de dados relativos às necessidades dos atuais ocupantes (os sem-teto),
às demandas de uso que possam existir no entorno dos viadutos,
e de vários outros condicionantes que já fazem parte ou
podem ser potencializados dentro dessas áreas. Acima de tudo, as
informações que produzimos e coletamos levam em consideração
que, se o objetivo final é chegarmos a uma intervenção
real e efetiva na cidade, é mister ouvir, a um só tempo,
o setor privado, as empresas locais, os ex-moradores dos viadutos, os
catadores de papel e as associações de bairros. Só
assim poderíamos ter a certeza que todos os setores – dos
prestadores de serviço mais marginalizados da sociedade aos produtores
da cidade – estariam envolvidos no processo, assim endossando a
viabilidade econômica, jurídica e social do projeto.
Dessa forma, dada a grande complexidade das demandas e os diversos atores
envolvidos, optamos por uma metodologia onde a produção
e coleta de dados é representada e sintetizada por meio de gráficos,
tabelas e diagramas que, finalmente, iriam nos auxiliar na elaboração
dos programas dos viadutos. Esta coleta de dados – primeira etapa
para chegarmos aos programas, que compõem nosso objetivo final
– não foi apenas uma pesquisa em órgãos públicos.
Um grupo multidisciplinar de doze estagiários de arquitetura, economia,
direito e assistência social, todos coordenados por Flávio
Agostini, arquiteto da ASF-Br, saiu às ruas de todos os bairros
atravessados pela Via Expressa (2). A partir dessa pesquisa de três
meses (que exigiu caminhadas árduas de dezenas e dezenas de quilômetros
pela cidade em sol escaldante; inúmeras entrevistas com sem-tetos,
vendedores ambulantes, presidentes de associações, gerentes
de empresas e donas de casa; o preenchimento de um sem-número de
formulários por parte de todos os estudantes e arquitetos envolvidos,
etc; o que também nos fez conhecer os limites da cidade formal
e informal in loco), chegamos então aos mapas/diagramas que nos
serviram como ponto de partida para as fases subseqüentes do projeto.
Os diagramas elaborados são onze:
1. diagrama de usos atuais dos bairros adjacentes aos viadutos (para um
entendimento das demandas locais e as intensidades de uso nos três
turnos – manhã, tarde, noite);
2. diagrama do potencial de publicidade de cada um dos viadutos (com o
objetivo de prever futuras parcerias entre eventuais patrocinadores e
os usos propostos);
3. diagrama de reciclagem (para sabermos quais os percursos e quais seriam
as áreas mais propícias para apoio da reciclagem de material
reciclável);
4. diagrama das demandas das empresas, associações de bairro,
moradores de rua, catadores, e empresas dos bairros (para termos um quadro
mais amplo das demandas de programas de todos os possíveis interessados
na ocupação dos viadutos);
5. diagrama de parcerias das empresas locais (para identificarmos os possíveis
parceiros dos programas propostos);
6. diagrama jurídico (para indicarmos a situação
cartorária dos terrenos não ocupados e áreas residuais
– a quem pertencem?, e para traçarmos o caminho jurídico
para a sua incorporação nos futuros projetos);
7. diagrama de sentimento de segurança (para identificarmos o nível
de violência e o grau de sentimento de insegurança quanto
ao real quadro estatístico relativo a esse problema);
8. diagrama de acessibilidade (para mapearmos os graus de acessibilidade
aos viadutos e adjacências para pedestres, automóveis e usuários
dos sistemas de transporte coletivo);
9. diagrama das futuras modificações (para identificarmos
tendências de modificações futuras nas áreas,
de modo a gerar um panorama para atuação a médio
prazo);
10. diagrama social (para sistematizarmos e disponibilizarmos aos futuros
parceiros dos projetos dados que permitam a inclusão social pela
participação de moradores e catadores em novos programas);
e
11. diagrama de meso-estrutura (para medirmos a potencialidade física
de cada viaduto para absorver programas de pequeno, médio ou grande
porte, além da estrutura já instalada – luz, esgoto,
etc – e de condicionantes ambientais).
Na feitura desses diagramas, fizemos uma pesquisa paralela sobre os modos
de representação da cidade formal e informal e as dinâmicas
das áreas mais caóticas da cidade. Assim, os diagramas são,
eles mesmos, sínteses visuais das informações coletadas
– sempre com o objetivo de prestarem-se como instrumentos operativos
para a fase final do projeto. Todos eles buscam representar questões
relativas à dinâmica urbana e ao quadro social da área
de pesquisa de maneira direta e, ao mesmo tempo, procuram manter-se distantes
da representação tradicional em plantas, croquis, etc. Tudo
que foi escolhido para ser representado está inserido em um raciocínio
de questionamento dos prováveis programas. Ou seja, se uma determinada
informação fosse considerada sem importância no contexto
do rankeamento dos programas, essa informação seria eliminada.
Analogamente, se uma informação aparentemente pequena no
mar de informações que coletamos pudesse indicar algum programa,
ela seria mantida.
Dada a enorme quantidade de informações apreendidas, a representação
dos diagramas foi evoluindo gradativamente, convergindo para sínteses
cada vez mais ricas. Para isso, desenvolvemos critérios de pontuação
numérica de cada assunto que, juntos, determinam a “nota”
de um viaduto. Isso se deu em um processo de discussão dos aspectos
subjetivos de comparação que precisávamos ponderar.
Por exemplo: o que é mais prejudicial para pensarmos a viabilidade
dos futuros projetos: uma área com sentimento de alto índice
de furtos e roubos ou uma área com índice médio de
homicídios? Como medir qual grupo (entre as empresas, moradores,
catadores, etc) tem maior peso no diagrama de demandas, já que
o número de entrevistas é diferente entre estes, bem como
os interesses e a área de atuação de cada grupo?
Que medida negativa poderíamos dar a fatores como poluição
ambiental em um determinado viaduto, de forma que essa informação
pudesse ser comparada a outra como índice de acessibilidade?
A partir desses questionamentos, estabelecemos os parâmetros comparativos
(sempre subjetivos e técnicos a um só tempo) para chegarmos
a uma síntese final de todos os diagramas. Para os de segurança,
acessibilidade, demandas, reciclagem, publicidade e meso-estrutura, foram
desenvolvidos rankings finais – as já mencionadas “notas”
para cada viaduto. Assim, um viaduto pode ser considerado “facilmente
acessível a pedestres” (no caso do diagrama de acessibilidade)
ou “bem equipado para receber programas” (no caso do diagrama
de meso-estrutura) a partir dessas notas. Os demais diagramas (usos, social,
jurídico e parcerias) entram na outra fase – os cruzamentos
– influenciando especificamente os primeiros. São estes cruzamentos
que constituem a última etapa do projeto, onde cada diagrama passa
a ser influenciado pelos outros para que suas notas iniciais sejam modificadas
e assim chegarmos a um ranking final. (3)
O resultado do projeto é uma série de doze viadutos e seis
passarelas com programas classificados em A, B ou C. Assim, um viaduto
X teve um programa específico (serviços, por exemplo) como
o programa mais indicado por meio de sua nota (A, por exemplo). Os programas
que nós ouvimos de todos os atores consultados e que finalmente
chegaram à lista dos mais indicados foram os mais variados: de
“supermercados” (proposto para um viaduto na periferia) a
“área de apoio às prostitutas” (!!! –
nas áreas centrais e mais violentas); e de “áreas
de lazer” (em bairros com deficiência dessas áreas)
a “centros de apoio à reciclagem” (em trechos mais
utilizados por catadores de papel). Quando, eventualmente, estivermos
diante da etapa arquitetônica do plano, teremos que escolher o programa
mais indicado de um determinado viaduto e analisá-lo de acordo
com a sua pertinência durante o dia e horário. Outros fatores
de influência determinarão essa escolha. Por exemplo, a quantidade
de área que um determinado programa demanda será um dado
fundamental (uma pista de skate ou uma quadra requerem muito espaço
aberto; enquanto lojas e serviços de bairro requerem pouca área
de projeção). Da mesma forma, o desenvolvimento dos modelos
de parceria para cada família de programa deverá ser estudado
oportunamente – aqueles que os próprios ex-moradores irão
administrar (auto-gestão de comércio, serviço), aqueles
em que as empresas irão ocupar as áreas (comércio),
aqueles de caráter público (lazer, praça) etc. Os
futuros programas da prefeitura e do estado também podem complementar
os que indicamos, o que poderá ser um fator circunstancial estratégico.
A partir disso, teremos então que articular os mecanismos jurídicos
que vão, finalmente, endossar as parcerias vislumbradas entre os
setores público e privado, possibilitando assim a viabilização
das intervenções nos viadutos.
Dadas as muitas resistências e desconfianças que este projeto
enfrenta, estamos agora diante de um impasse que – esperamos –
será superado. Para isso, precisamos de órgãos (e
homens) públicos que enxerguem essa proposta como uma oportunidade
audaciosa que contrapõe, a um problema típico das grandes
cidades sem planejamento, um método de trabalho flexível,
investigativo, participativo, e que aceita e transforma a informalidade
das cidades brasileiras (4).
Notas
1
Artigo publicado originalmente em ArqTexto N° 7, Revista da Faculdade
de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pag. 42-49,
Porto Alegre, 2005.
2
Os participantes são: Margarete Maria de Araújo Silva (Professora
Responsável Técnico – PUC/Minas), Flavio Mourão
Agostini (arquiteto coordenador – Arquitetos sem Fronteiras-Brasil),
Luciana Miglio Cajado (arquiteta sênior – Arquitetos sem Fronteiras-Brasil),
Adriene Lessa (arquiteta júnior), Mateus Gouvêa de Sousa
(arquiteto júnior), Carlos M Teixeira (arquiteto consultor - Arquitetos
sem Fronteiras-Brasil), Marco Antônio Sousa Borges Neto (advogado
– PUC/Minas), Cristiane Martins Oliveira (estagiária de arquitetura),
Fernando de Abreu Fortes (estagiário de arquitetura), Mario Antonio
Ferrari Felisberto (estagiário de arquitetura), Mariana Cançado
Juste (estagiária de arquitetura), Geise Cordeiro Rocha (estagiária
de arquitetura), Antônio Esteves do Nascimento Júnior (estagiário
de arquitetura), José Mario Barbosa Alves (estagiário de
arquitetura), Rosilene Ramos da Silva (ex-moradora), Carlos Antônio
de Oliveira (ex-morador), Irani Aparecida Meireles (ex-moradora), Leila
Damasceno (ex-moradora), Maria do Porto (ex-moradora), Fabiana de Jesus
Santos (ex-moradora), Robson Sávio (CRISP), Liane Nunes Borm (Instituto
Rua Viva), José Alberto São Thiago Rodrigues (Instituto
Rua Viva), Múcio T. Gonçalves (consultor de economia), Claudenice
Rodrigues Lopes (Pastoral de Rua da Arquidiocese de BH).
3
É difícil explicar os cruzamentos sem o auxílio dos
recursos gráficos utilizados, mas nas palavras do coordenador do
projeto, Flávio Agostini, as etapas dos cruzamentos são:
Os diagramas de demandas, reciclagem e publicidade são isolados
dos demais, já que só eles contêm essência programática,
enquanto os outros não – eles são apenas fatores de
influência dos primeiros. Neste cruzamento, identificamos em cada
tema ou programa levantado quais diagramas se influenciam diretamente.
Aqui, tudo tem o mesmo peso e, ao final, chegamos a uma média entre
pontos positivos e negativos que influenciam os programas dos viadutos.
“Repescagem”: os programas novos podem surgir não apenas
a partir de informações, mas também de acordo com
a interpretação subjetiva dos fatos. Assim, discutimos tudo
o que foi observado e levantado, recapitulamos o que já foi listado
e dimensionado, e então investigamos se outros programas (já
levantados em outros viadutos, programas que tiveram nota baixa e que
não foram classificados, ou ainda programas ainda não mencionados
por ninguém) podem nos interessar. Então, listamos estes
programas e fizemos novamente o cruzamento da etapa inicial, com todos
os outros diagramas.
Por fim, distribuímos estes programas indicando sua maior ou menor
pertinência em relação ao dia da semana ou horário.
4
“Baixios de Viadutos” foi uma iniciativa conjunta e jamais
seria possível sem a participação de todas as instituições
envolvidas: o Escritório de Integração do Departamento
de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Minas, a Pastoral de Rua da Arquidiocese
de Belo Horizonte, o Rua Viva/Instituto de Mobilidade Sustentável
e a Associação Arquitetos sem Fronteiras – ASF-Br;
a qual coordenou o projeto e elaborou este texto. O Escritório
de Integração já tinha elaborado um texto (“Viadutos
Urbanos: a que será que destinam?”) além de uma proposta
de intervenção para dois dos viadutos da Via-Expressa, porém
desenhada com seus programas definidos antes das informações
levantadas neste projeto. A Pastoral de Rua, que vem dado apoio sistemático
aos ex-moradores de viadutos da cidade, esteve sempre presente e nosso
contato com estes não seria possível sem o envolvimento
constante das assistentes sociais da Pastoral. Os ex-moradores tiveram
participação ativa, discutindo e expondo suas dificuldades
e potenciais, atendendo às oficinas de projeto, auxiliando os arquitetos
nas entrevistas de rua e participando de workshops para instrumentá-los
a entender e elaborar representações da cidade.
“Baixios de Viadutos” teve financiamento do Ministério
das Cidades através do programa de Reabilitação de
Áreas Urbanas Centrais e apoio da Prefeitura de Belo Horizonte.
Após a entrega do projeto em 2005, tem sido objetivo da ASF-Br
e demais envolvidos conseguirmos recursos adicionais para a etapa complementar,
onde faremos os citados projetos urbanísticos e arquitetônicos
a partir dos programas indicados nessa primeira etapa.
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