| Liquefazendo
Brasília Carlos M Teixeira Nostálgicos modernistas e moralistas de plantão, olheiros de Niemeyer e burocratas do Iphan, museólogos da arquitetura e demais elementos da retaguarda nacional: evacuem Brasília já! Os predinhos das superquadras já não seguem mais o modelo dos criadores da cidade? A “arquitetura comercial” está estragando a plasticidade da W3? A nova ponte sobre o lago Paranoá é uma agressão ao plano piloto? Que venha mais sujeira! Capins de todas as espécies, tomem os predinhos da Asa Sul! Gramado da Esplanada dos Ministérios: deixe-se ocupar por pacaris, araticums, bacuparis, barbatimões, muricis e gabirobas!, e protejam do sol inclemente aqueles ministérios deitados! Superquadras da Asa Norte: muito, muito mais capins!!! Campo limpo, campo sujo, campo cerrado, cerradão. É óbvio que é aqui que está a verdadeira monumentalidade desta cidade: na amplidão desses campos, naquelas distâncias intransponíveis entre uma superquadra e outra, e na pouca densidade de seu plano piloto. É notável isso sempre ter passado despercebido nas análises de Brasília: a cidade é, acima de qualquer outra coisa, um oxímoro da paisagem: um enorme descampado de gramíneas. Brasília
foi uma tentativa de ocupar um grande vazio que é o interior do
Brasil. Nesse sentido foi um malogro: a ocupação não
foi além dos limites do Distrito Federal. O cerrado colonizou Brasília
mas, claro, Brasília definitivamente não colonizou o cerrado.
Brasília é uma demonstração de permeabilidade
da cidade em relação a seu entorno natural; um excelente
parâmetro para os ecólogos contemporêneos: prova de
que podemos, sim, ocupar um bioma rico como o do cerrado sem alterar em
(quase) nada um ecossistema pré-existente. Segundo seu autor, Lúcio
Costa, urbanismo consiste em “levar um pouco da cidade para o campo
e trazer um pouco do campo para dentro da cidade”. Mas Brasília
é como uma denúncia de desequilíbrio dessa definição:
cidade cuja maior virtude é ter trazido demasiado campo para a
cidade. É a permeabilidade total; a aceitação de
uma ordem natural sem conflitos, a perfeita simbiose de estranhos que
se repelem. É o oposto da impermeabilidade pervasiva de qualquer
outra cidade. Em Brasília o asfalto se perde na paisagem enquanto
o verde invade o cinza, brotando por sobre o pavimento e mudando o significado
de fenômenos banais -- exatamente como a fúria expressa na
rodovia Transamazônica sendo engolida pela floresta. É a
cidade como um “mar de espaço”, um deserto vegetal
que ignora o avanço da arquitetura, permanecendo superior e indiferente,
inabalável e descrente de todas as empreitadas que intencionam
ocupar o território de forma convencional. Mas por mais longo que fosse, esse texto não seria tão eloquente quanto o ensaio fotográfico “Brasilia” do fotógrafo Emmanuel Pinard. Que fotos mais lindas e mais feias! Não aqueles ângulos estudados da catedral, sem aquelas torres gêmeas do congresso, nada que nos lembre os formalismos de seus monumentos. Mas só a verdadeira essência dessa cidade-mato: seus campos largados, os solos avermelhados, a aridez quase desértica de sua vegetação, a arquitetura em segundo plano que luta para aparecer. E a linha do horizonte como que insinuando o que todos os amantes nostálgicos de Brasília devem esquecer: que esta cidade é uma alta materialização das idéias modernistas. Não mais. Esqueçam
o historicismo de Aldo Rossi e a cidade genérica de Koolhaas –
esta última, pricipalmente, não vai nos levar a lugar algum.
Pois agora Brasília é um novo modelo de cidade, do século
XXI, sem qualquer ligação com o Movimento Moderno e com
os discursos estabelecidos. É um exemplo de entrosamento entre
cidade e natureza, uma arma que desarma os técnicos da FEAM: cidade
de enormes potenciais inexplorados, cidade como um aumento das infinitas
possibilidades de paisagem do cerrado. Brasília é isso:
um exército de reserva de novas idéias bem ao nosso lado,
esperando alguma reação que derrube todas as inércias
acadêmicas. Não está nessa sensibilidade (contraditória
e ocilantemente) ecológica o futuro de Brasília, do urbanismo,
da arquitetura? ©
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