Favelas
& Condomínios Favelas, shoppings e condomínios. Três enclaves; três entidades autônomas que evitam ou são evitados pelo resto da cidade e que representam o atual estado de qualquer metrópole brasileira. Dentre esses três, os condomínios talvez sejam o fenômeno que assistiu à maior explosão urbana nas duas últimas décadas. Hoje eles estão sendo construídos por todos os lados, seja como loteamentos cercados na periferia, como fortificações residenciais na zona sul ou como mini-cidades implantadas nos municípios vizinhos. E, com certeza, é o condomínio vertical o que mais tem reconfigurado a fisionomia das grandes cidades. A história dos condomínios verticais confunde-se com a época áurea do modernismo no Brasil. Em Belo Horizonte, o maior condomínio residencial foi projetado há mais de cinqüenta anos. Foi em 1951 que uma espécie de Arca de Noé salvadora seria lançada na calmaria de uma cidade sem nada que lembrasse um dilúvio. A Torre Kubitschek, ou Conjunto JK, anunciava uma nova época, um novo espírito, uma forma totalmente diferente de habitação: 5.000 moradores aglutinados em um complexo de pequenos apartamentos junto a lavanderias, cinemas, hotel, museu, lojas, padaria, confeitaria, restaurantes, salão de beleza, barbearia, piscinas, playground e rodoviária - tudo isso na pacata BH de 1952 e seus 350.000 habitantes. Nos dizeres do folheto promocional, não seria preciso deixar o prédio para nada: “Suponhamos que você precise comprar uma gravata... ou seja necessário um remédio... ou que sua esposa precise de manicura ou cabeleireiro... Nesta cidade vertical há de tudo. Sem deixar o Conjunto, você encontrará tudo o que precisa. (...) Não é preciso sair... Qual é a cozinha de sua preferência? Brasileira? Italiana? Francesa? Pois bem! Neste restaurante de alta classe, você se sentirá perfeitamente à vontade”. Esse edifício autista – ou uma “cidade dentro da cidade” - marcava e ainda marca presença como objeto que se estabeleceu sem ser convidado e que propunha um programa totalmente diverso de tudo já existente. Seus riscos eram proporcionais às imprevisibilidades do desfecho da aventura, e aqueles que moram em BH conhecem o final desse ímã arquitetônico: um edifício que representa toda a ingenuidade, o otimismo e o exagero de seu tempo; uma micro-cidade que hoje abriga espécies sociais variadas - e que definitivamente não coincidem com a classe-alvo do projeto, a classe média então emergente. Na verdade, o projeto que previa um prazo de três anos para ser finalizado, até hoje está incompleto. Hoje Niemeyer o despreza, Juscelino quis esquecê-lo, a história da arquitetura brasileira tenta ignorá-lo, mas a presença incômoda desse monstro jamais passará despercebida pela cidade. O curioso é que o CJK e seu aspecto de estigma da modernidade, suas ocorrências policiais e sua aura de condensador desgovernado carrega também a fórmula do maior êxito imobiliário dos nossos dias. Apesar do fracasso desse pioneiro, Alphavilles e condomínios verticais estão aí, todos querendo ser tão autônomos e auto-suficientes quanto os prenúncios do CJK. Condomínios e favelas adotam posturas antagônicas com relação a cidade: os primeiros a desprezam, os últimos são por ela desprezados. Mas as favelas não perdem em hermetismo para os condomínios murados. Também são impenetráveis, incógnitas só conhecidas por seus moradores e pela polícia. As favelas são favelas porque não tem serviços, ao contrário do excesso de serviços dos condomínios. A concentração de coisas em condomínios verticais gera um crescimento urbano irregular marcado por manchas dos “sem-infra-estrutura”, que são então ocupadas por aqueles que não podem pagar pelos serviços urbanos básicos. Os condomínios e os edifícios comerciais, naturalmente, são instalados em pontos de infra-estrutura abundante. As favelas seguem a estratégia inversa: elas podem ser definidas como tal exatamente por serem carentes de infra-estrutura, por funcionarem como locais construídos por aqueles que constróem onde lhes resta: a ausência de esgoto, de planejamento, de endereço. São buracos negros dispostos como manchas no tecido urbano; desertos territoriais ocupáveis por habitantes que inventam seus próprios serviços. Nascem como processos de auto-organização, como loteamentos desplanejados onde a disposição dos “terrenos” se dá aleatoriamente. Longe, nas várzeas, nos morros; áreas marginais, grandes assentamentos ligados à habitação da classe baixa e que ocupam espaços desestruturados, sem nenhuma aparente coerência com as leis urbanas. Com a dupla condomínios & favelas - tese e antítese que guardam semelhanças - a cidade se transforma em um conjunto de múltiplas cidades dentro de uma cidade. Mas mesmo as favelas podem ser absorvidas pelo tecido urbano. Tentando amenizar este conflito favela/cidade, a prefeitura do Rio de Janeiro desde 1993 vem empreendendo o Favela-Bairro, programa social que tem como premissa o reconhecimento das moradias das populações de baixa renda, sua estimulação e complementação. O programa não se limita à construção de infra-estrutura básica (água, esgoto, drenagem), mas envolve a construção de creches, centros comunitários de capacitação profissional, áreas de esporte e lazer, canalização de córregos, arborização de ruas, construção de escadas, etc. Hoje, depois de intervenções em dezenas de favelas, mesmo arquitetos estrangeiros integraram-se ao programa. Recentemente, professores alemães da Bauhaus visitaram a favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio, e lá ficaram hospedados por duas semanas. Um convênio entre a prefeitura e a legendária escola de arquitetura vai proporcionar aos moradores acesso a espaços culturais, anfiteatro, biblioteca e livraria. (E certamente não é nova essa idéia de valorizar assentamentos pobres: de certa forma, o Barrio Gótico de Barcelona, o Alfama de Lisboa, as vilas do Mezzogiorno italiano etc., são favelas com carga histórica que assistiram lentamente às instalações dos serviços urbanos modernos.) Entretanto, o Favela-Bairro é uma intervenção pública que, apesar de super ambiciosa, não é suficiente para remediar todo o problema. Sabemos que a favelização tomou proporções grandes demais para ser resolvido por uma, duas, três, ou dez administrações. Na aproximação radical entre condomínios e favelas estão escondidos as alternativas para o orçamento reduzido das cidades, incapazes de resolver as carências de milhões de habitantes só com dinheiro público. Explicitar contrastes sociais e vislumbrar fenômenos extremos é uma saída: choques econômicos entre classes sociais que irão mostrar possibilidades inéditas, misturas quiméricas e oportunidades de investimento jamais imaginadas nem pelo mais visionário dos empresários, nem pelo mais empreendedor dos sociólogos. Hoje, são favelados os detentores das maiores e melhores áreas para especulação urbana nas cidades. Na zona sul do Rio, os casebres da favela da Rocinha se debruçam sobre os prédios de São Conrado. Na orla do Recife, a favela Brasília Teimosa (que ótimo nome!) é uma restinga próxima à praia da Boa Viagem cercada de mar por todos os lados. Em Belo Horizonte, entre os bairros Sion e Santa Lúcia, um morro com vistas privilegiadas da cidade aglomera a favela do Papagaio. Um supermercado novo na principal avenida da zona sul ilustra uma aproximação radical no caso de Belo Horizonte; uma colisão entre “asfalto” e favela que poderia ser levada a outras conseqüências. Os prédios já estão na favela, a favela já está nos bairros. Se à iniciativa privada fossem cedidos terrenos hoje ocupados pelas favelas, mecanismos de contrapartida entre construtoras e favelas gerariam projetos que englobariam moradores ‘inimigos’. Em princípio, a estratégia é simples: empresários e comunidades faveladas conciliando soluções possíveis, terrenos para prédios em troca de intervenções sociais. Os terrenos das áreas mais valorizadas (ou valorizáveis) das favelas seriam negociados com as construtoras, que por sua vez haveriam que implantar as mesmas infra-estruturas do programa Favela-Bairro – porém aqui bancadas pela iniciativa privada. Um desvario polêmico porém possível, exeqüível via projetos que contemplariam, a um só tempo, os problemas dos que ganham um e dos que ganham quarenta salários mínimos... Os mesmos conflitos, as guerras civis intermináveis apaziguadas através de ninguém menos que o mercado imobiliário. As cidades dentro da cidade vendo suas fronteiras desvanecerem ante às oportunidades da construção civil. Que reversão fabulosa, se a riqueza do traçado medieval e toda a subjetividade das favelas fosse valorizada e reapropriada justamente pelos mais conservadores agentes da cidade! página
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