Copan Certificado no livro Guinness, os números do Edifício Copan são superlativos: maior da América Latina, 5.000 moradores, 1.160 apartamentos, área de apartamentos de 86.500m2 e área total de 115.000m2, 70 lojas que empregam 950 pessoas, folha de pagamento com mais de 100 funcionários, 1.800 linhas de telefone, consumo de energia de 30.000 kW/mês, consumo de água de um milhão de litros/dia e produção de lixo de três toneladas/dia. História Mas visto que foram
construídos em áreas centrais, o JK e o Copan veriam, mais
tarde, seu heroísmo diminuído pelo crescimento urbano descontrolado.
Se fotos feitas por volta de 1960 deixam claro a arrogância dessas
lâminas, hoje ambas estão imersas numa congestão de
prédios anônimos e pouco preocupados com a presença
daqueles colossos. Afirmação auto-confiante e tipicamente
modernista, o Copan poderia ter passado, em duas décadas, de protagonista
a mero coadjuvante de São Paulo, símbolo de uma cidade industrial
transformado em apenas mais um elemento de uma urbes quase catastrófica.
Cinqüenta e seis anos depois de projetado, o contexto do Copan mudou:
hoje sua imagem está menos para a ironia do Monumento Contínuo
e mais para o peso de Lilith (1987), tela de Anselm Kiefer onde uma imagem
aérea dos prédios do Centro paulistano é ofuscada
pela sobreposição de camadas de poeira e terra. Mutilações Problemas administrativos vieram, entretanto. Com todos os apartamentos vendidos a preço de custo (sendo os lucros provenientes apenas da taxa de administração da construção), mais de uma empresa foi à falência por improbidade administrava. Iniciada por uma sociedade anônima da qual participava, indiretamente, a companhia aérea americana Pan-American World Airways (Pan-Am), a obra passou de mão em mão por cinco anos até que, em 1957, o Bradesco, maior banco privado do país, assumiu sua incorporação e construção. Conjunto díspare, o Copan deveria abrigar, além do edifício residencial, um hotel de 600 apartamentos num prédio vizinho de linguagem arquitetônica oposta (a curva em S sobreposta a um paralelepípedo neutro e mais baixo). O Bradesco decidiu mudar o programa do prédio, que de hotel passou a ser a sede do banco. Tivesse sido um hotel, dele sairia um enorme terraço-jardim com salões, restaurantes, áreas verdes e um teatro para 500 pessoas que uniria os dois prédios – elemento de ligação fundamental para dar sentido ao conjunto. O principal acesso ao hotel dar-se-ia pelo terraço, o que reforçaria a fluidez de movimentos entre os dois prédios e incrementaria o uso das facilidades públicas do hotel e do edifício residencial. Conjunto multifuncional voltado para a escala da cidade, a plataforma que ligaria os dois prédios não foi construída – o banco é totalmente ensimesmado – e hoje é impossível saber que ambos formam o conjunto (o projeto do banco foi desenvolvido não por Niemeyer, mas por Carlos Lemos, quem manteve a volumetria do projeto original). Sem os eloqüentes espaços com e sem programas do terraço, o ponto de diálogo foi perdido. Concebido para “recuperar o chão” (Niemeyer), o terraço tem hoje apenas o gigantesco cinema de 3.500 lugares que, ainda assim, virou igreja (destino de todos os grandes cinemas). Quase pior foi a alteração das plantas dos apartamentos, com número de quartos variável conforme os seis blocos do prédio. Temendo o atrito social patrocinado por essa variedade e apostando no novo filão de apartamentos pequenos, o banco mudou as plantas dos blocos E e F (quatro quartos) que então foram redivididas como desajeitadas quitinetes. A garagem foi alterada: das 500 vagas do projeto original, a construída oferece apenas 221, e o segundo subsolo não foi construído. Plástica O pilotis e mezanino do prédio têm traços característicos do autor: curvas serpenteadas que comporiam, parafraseando K. Frampton, “um caminho arquitetônico de música e dança” (como na Casa do Baile); além de pilares livres (graças a uma enorme viga de transição, como na Unidade de Habitação de Le Corbusier), e independência entre planta e cobertura (como na Casa das Canoas). Contanto, no Copan as mudanças do projeto enfraqueceram a independência entre as curvas assim como a vascularidade entre os níveis das lojas do pilotis. O mais grave problema que ainda persiste no prédio – a ociosidade e abandono das sobre-lojas – parece ser consequência da circulação vertical deficiente, escultórica no projeto e inexistente no prédio construído. Todos os principais elementos dessa circulação não foram executados: as escadas rolantes entre lojas e sobre-lojas, e a grande rampa espiralada que convidaria os pedestres a subir da rua para o terraço (substituída por uma escada elegante, porém tímida). A cúpula do cinema também teve sua forma côncava deturpada e, como o corte nos informa, estaria construída espetacularmente sobre o teatro, também não construído. Os descaminhos da
construção do Copan foram muitos, mas na verdade ele resistiu
bem às alterações e ao tempo. Apesar das mudanças
na fachada posterior, as duas elevações mantiveram-se como
duas superfícies complementares: a lisa e fluida, com os brises
em balanço desenvolvendo-se livremente; e outra, estriada, modulada
por pilares e vigas. Sua forma em S aberto ainda é aquela com maior
presença plástica na cidade, sugerindo-o como um prédio
carioca em um contexto paulistano. O organicismo e a maleabilidade de
Niemeyer aqui prenunciaram a paisagem dura e desgovernada de São
Paulo: não é difícil enxergar, no homofônico
hotel do conjunto (o atual edifício-sede do banco), um precursor
do que é hoje a congestão vertical que assola a cidade.
Acirrada pelo seu importante vizinho de quarteirão, o edifício
Itália (Franz Heep, 1953), a importância do Copan parece
crescer com densificação do Centro: quanto mais afogado
em prédios, melhor. As linhas retas que escondem-no por todos os
lados parecem enaltecer suas formas sinuosas e, no nível do pedestre,
essa obstrução só aumenta o senso de surpresa causado
por esse edifício espetacular.
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