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Cooperativa
Ciudad Abierta, Chile Assim o grupo fundado em 1950 pelo arquiteto chileno Alberto Cruz e pelo poeta argentino Godofredo Iommi equaciona seu trabalho de perseverante e singularíssima trajetória de mais de quarenta anos. “Sermos de origem americana - sul-americana - significa estarmos em um constante estado de formação: desenvolvendo-nos, vivemos em uma tradição que nasce por plasmar constantemente a idéia que informa seu próprio desenvolvimento.“ De acordo
com o grupo, a tradição nativa, por si própria, não
pode ser tomada como o carácter dominante da cultura latino-americana.
Assumindo que a nossa é uma cultura de transformação
da cultura européia, o grupo de Valparaíso empreendeu um
longo estudo geográfico dessa transformação, usando
documentos das expedições dos colonizadores - da Conquista
-, e mapeou todos os assentamentos e as representações cartográficas
do Novo Mundo. A viagem, anunciada no The Times como “uma expedição internacional de poetas e outros”, começou pela Terra do Fogo, bissetriz entre os oceanos Pacífico e Atlântico, e avançou rumo ao norte pelo interior do continente. Este, designado como “mar interior” por sua quase ausência de ocupação, é então considerado o mistério da emergência da América no mundo moderno. A meta final é Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, declarada a capital poética da América. Durante a viagem, uma série de atos poéticos vão se acumulando, incluindo conferências e a realização de obras de arte in situ criadas a partir dos mais variados materiais. É
iniciado então o épico processo de continuação
da colonização da América, uma recolonização
com propósitos ora antagônicos ora similares ao do colonizador
europeu: “Vocês sabem que o rei da Espanha não poderia
começar senão desde o início, por isso México
e Cuzco foram apagadas, porque um rei, um imperador, para construir seu
império não ergue pedras a partir do que já fizeram
outros reis. É o início, a liberdade do início, ou
a liberdade do reinício. É a liberdade de começar
desde o zero, ou a liberdade de começar desde um ou a liberdade
de começar desde cem. Longe de
ser a caricatura do Velho Mundo ou a modernidade-Frankstein criada pela
mãe Europa, a América é um presente: “Um presente
que aparece porque irrompe (...). Irrompe e tem que ser aceito e, para
tanto, modificado. O que a poesia de Amereida faz é o canto à
memória original.” Desde a noção das Indias
até o lugar geográfico do ‘paraíso terrestre’,
é incontestável que a América constituiu uma irupção,
um mundo novo e inesperado: “Colombo nunca veio à América,
ele procurava as Indias. (...) O que significa sermos despertados pela
doação? Nada mais e nada menos que cobrar consciência
de que a identidade dos americanos é aquela de aceitar viver e
constituir o mundo como presente.” colón
mero contrariando
intentos No final
dos anos sessenta, foram iniciadas as obras da ‘Ciudad Abierta’,
o local onde algumas das idéias do grupo puderam ser finalmente
implementadas. O sítio da cidade se extende da orla do oceano Pacífico
a um amplo vazio rural - o mar interior -, a maior parte do qual coberto
por dunas de areia. Acontece aí o primeiro ato arquitetônico
do grupo, aberto à toda a comunidade e específico do lugar
e da ocasião. As dunas sopradas pela brisa do mar, que apaga todas
as marcas da superfície, foram identificadas com a idéia
de inocência, e daí designadas como o lugar onde o conhecimento
e a experiência seriam obliterados em favor de uma confrontação
com o novo. No ensaio “Ciudad Abierta: da utopia à miragem”, Cruz e Iommi afirmam que é possível construir uma miragem - uma ilusão sem profundidade - assim como uma construção aspira a nada mais que ser visível: pura poiesis. Na ausência da utopia, um complexo de metiers poéticos, indiferentes à permanência e tendo como função única a aparência, deve ser dita a constituição de uma cidade. Claramente, esta noção exclui a possibilidade de planejamento, já que ela se apóia na noção de deliberada criatividade. Sua existência claramente passa desapercebida. Seus habitantes desempenham os papéis dos clientes, arquitetos, construtores e moradores; e a prática dos mesmos se dá espontaneamente. As viagens ao longo do interior do continente, iniciadas quando do lançamento do poema Amereida (1966), continuam ainda hoje, sempre organizadas pelo Instituto de Arquitetura da Universidade Católica de Valparaíso. De dez em dez anos o grupo organiza exposições dos estudos do grupo e das obras construídas. A poesia de Godofredo Iommi é publicada em limitadas edições pela Escola de Arquitetura e vendida em livrarias no Chile. Amereida, o poema, foi republicado recentemente pela PUC de Santiago juntamente com os anais de um seminário realizado em 1990 e 1991 e integrado, entre outros, por Cruz e Iommi. Os dois projetos apresentados aqui, a Hospedería del Errante e a extenção da Hospedería de la Puntilla, são as duas últimas obras concluídas pelo grupo. Os autores: “Nós falamos brincando no grupo que, assim como alguns arquitetos no curso da história adotaram um outro nome, nós podemos nos chamar “Ciudad Abierta”. Que seja assim!” ©
Vazio S/A Arquitetura e Urbanismo |