Vazio S/A – Incorporações (teoria) – Vazio S/A

Publicado originalmente no portal Vitruvius, esse texto defende a participação dos arquitetos na incorporação imobiliária e descreve uma experiência feita na disciplina Estudio V do Unileste-MG. Ministrada por Wellington Cançado e Carlos Teixeira, o estúdio foi uma boa oportunidade para colocar em choque as limitações e a mesquinhez da construção civil com a liberdade da especulação acadêmica.

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Incorporações
Carlos Teixeira

“Um criador que não esteja limitado até a garganta por um conjunto de impossibilidades não é um criador. Um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e assim cria possibilidades. [...] Você tem que trabalhar contra a parede, porque sem um conjunto de impossibilidades não haverá uma linha de vôo, a saída que é a criação, a força da falsidade que é a verdade. [...] Você terá que ser líquido ou gasoso, exatamente por que a percepção normal e a opinião comum são sólidas, geométricas” Gilles Deleuze (1)

Arquitetos estão sempre mergulhados num mar de impossibilidades e obstáculos, especialmente no Brasil: estamos na fase do estado falido, das cidades produzidas pelas grandes incorporadoras, das escolas de arquitetura provincianas e de tudo que poderia fazer deste texto mais um lamento da profissão. Mas seria exagero considerar os arquitetos de hoje como profissionais deslocados do mercado por culpa deles mesmos? Por uma falta de perspicácia para perceberem fenômenos contemporâneos, e por uma recusa em assumir riscos que outros profissionais correlatos assumem? Arquitetos não poderiam utilizar essa situação premente – a crise do aqui e agora – para tentar ver nos mecanismos de produção da cidade um modo de atuação criativo e oportuno? Todos sabem que a arquitetura brasileira está nostalgicamente presa a uma âncora que é a arquitetura produzida aqui em meados do século XX. Toda boa arquitetura brasileira, inclusive a contemporânea, está ligada a uma linha traçada pelos mestres modernistas locais, com pouquíssimas exceções. E toda essa herança atrelada àqueles heróis modernistas foi mitificada; raramente sendo associada a fatores que efetivamente alavancaram a modernização da arquitetura no Brasil e no resto do mundo.

Discutir a importância do mercado imobiliário na arquitetura moderna brasileira é algo ainda por fazer; um assunto que pode gerar uma crítica tão instigante quanto à que Brett Steele (2) fez sobre a relação entre publicidade e arquitetura moderna. No Brasil, é importante destacar o trabalho isolado de Wellington Cançado, “Lugares-Comuns Classificados”, no qual ele procura, em suas palavras, “compreender os processos e as circunstâncias que determinaram a ‘falência’ do modelo modernista estabelecido e o surgimento desses edifícios desprezados pela arquitetura oficial, que na falta de um termo mais adequado continuam a ser chamados de arquitetura, com alguns adjetivos acrescentados: ‘ordinária’, ‘cotidiana’, ‘de mercado’, comercial ou mesmo arquitetura imobiliária” (3). Mesmo sabendo que vários arquitetos modernistas encontraram nas incorporadoras várias oportunidades de projeto, nunca a confluência de interesses entre as duas partes são consideradas pelos críticos (4) que, usualmente, preferem ater-se a textos mais descritivos ou tendem a considerar a arquitetura como uma profissão fora das forças externas que a conformam.

Incorporar é, segundo o dicionário Michaelis, “1. dar corpo ou forma corpórea”. Em inglês, a palavra é mais usada como sinônimo de fusão de partes em um todo – uma união de companhias que atuam em diversas áreas, um grupo de empresas ligadas a uma organização comum. Mas por ter origens no latim incorporare (in + corpus), incorporar em inglês também é palavra de significados abertos, tendo sido título de um livro lançado em 1992, Incorporations (5), organizado por Sanford Kwinter e Jonathan Crary. Incorporações, para os dois autores, significam as novas formas de entender dois sistemas aparente e historicamente incongruentes: o organismo e a máquina. Para eles, o que está em mudança hoje nas civilizações adiantadas são os “processos históricos de mecanização da vida” – acelerados pela industrialização e o rápido avanço do capitalismo desde fins do século XIX – , que agora estariam sendo substituídos pelo que eles classificam como “vitalização da máquina”. Traçando linhas de desenvolvimento pensadas por filósofos, neurocientistas, arquitetos, biólogos, artistas e historiadores, Incorporations tenta mostrar que essa vitalização já está presente não apenas em muitos regimes contemporâneos de poder e de produção, como também é uma tendência nas forças mais resistentes a mudanças de paradigmas como a arquitetura – e, portanto, plenas de capacidades desconhecidas e ainda imprevisíveis para a transformação cultural.

Na construção civil brasileira, o termo incorporação foi introduzido já na década de 60, quando foi sancionada a lei 4.591 que dispõe sobre o condomínio em edificações e a venda de unidades em planta. Antes dessa lei, aquele que articulava os interessados em um empreendimento era chamado de ‘armador’. O armador era um dos principais agentes modificadores da cidade. Ele percebia o potencial de mercado de um terreno, contatava seu proprietário, propunha um permuta comercial (troca do valor do terreno por unidades a serem construídas), contratava um arquiteto para traduzir suas idéias, anunciava a construção na mídia e por fim contratava uma construtora para executar o projeto. O armador era um possibilitador, um articulador de interesses passíveis de convergência. Nessa cadeia, o arquiteto tem uma função limitada: elaborar um projeto de arquitetura de acordo com as idéias do responsável pelo empreendimento – o armador. Mas o armador, ignorante em matéria de arquitetura e urbanismo, naturalmente só quer a repetição de fórmulas já testadas e bem sucedidas alhures. Ele arrisca, mas unicamente no âmbito da administração de um empreendimento. O que é o caso inverso dos arquitetos: estes, quando querem arriscar, não assumem as consequências econômicas e legais desses riscos. Não dominam essas responsabilidades por que não foram treinados para isso, mas essas responsabilidades muitas vezes são as mesmas assumidas pelos arquitetos de países onde a arquitetura tem um papel fundamental na produção cultural. (Na Espanha, os arquitetos têm um status social acima da média [mesmo se comparado com arquitetos de outros países europeus] principalmente por que têm um Collegio de Arquitectos atuante, com representações em todas as cidades de médio e grande porte. Até a inclusão da Espanha na Comunidade Européia, não apenas os órgãos da administração municipal eram responsáveis pela aprovação de projetos, mas também os Collegios, o que dava a estes um poder de decisão e controle que instituições como os IABs do Brasil não têm. A fiscalização de projetos também dava ao Collegio maior credibilidade para angariar recursos dos próprios arquitetos, o que resultava em subsídios para revistas de arquitetura, publicações, exposições, etc.; sendo estes últimos os fatores que certamente ajudaram a arquitetura espanhola a obter o reconhecimento internacional que ela hoje tem. Além disso, a dos espanhóis é realmente uma formação de engenheiro-arquiteto: mesmo nos pequenos escritórios, é comum o profissional desenvolver o projeto de cálculo estrutural e de instalações elétricas e hidráulicas do respectivo projeto arquitetônico). No final, podemos dizer que as responsabilidades, legais e econômicas, são também possibilitadoras de novos projetos; ou, em outras palavras, que a definição de projeto evolui com a definição das responsabilidades atreladas ao projeto. Aos arquitetos são cobradas idéias visionárias. A responsabilidade pela execução dessas idéias infelizmente não é considerada objeto da competência dos arquitetos, o que colabora e endossa a imagem do arquiteto como um agente passivo e marginalizado.

Tomando essas limitações dos arquitetos como potencial de mudanças, o que testamos na disciplina Estúdio VII no Curso de Arquitetura do UnilesteMG é uma aproximação crítica entre projeto arquitetônico, mercado da construção civil, e as restrições ambientais cada vez mais influentes na agenda dos arquitetos. O Estúdio começou com uma análise da Região Metropolitana de Ipatinga – cidade fundada para ser a sede da usina da Usiminas – do ponto de vista similar ao usado em planos estratégicos. Dividido em quatro grupos, cada um ficou responsável pela análise do município por um determinado ponto de vista (grupo 1-transporte, grupo 2-meio ambiente, grupo 3-situação econômica, e grupo 4-situação social). A partir desses quatro estudos, os grupos apresentaram propostas de programa que funcionariam como respostas aos potenciais e deficiências implícitos naqueles estudos; ou seja, todos os projetos propostos formariam, no conjunto, uma resposta articulada e coesa para os problemas e positividades da cidade indicados naquela primeira pesquisa.

Paralelamente, trazíamos vários “ataques da realidade” para dentro de sala de aula. Os alunos foram forçados a defender suas idéias junto aos atores que estariam efetivamente ligados à implementação dos projetos na prática da profissão — quais sejam, os proprietários dos terrenos, a prefeitura, o construtor, o incorporador imobiliário, entre outros. Esses atores foram convidados para compor os dois júris que precedem a entrega final dos projetos. Os comentários feitos por cada um deles naturalmente eram condizentes com os interesses de cada um (6) – setor público, setor privado, ambientalistas, o proprietário do imóvel, etc. – e geraram um debate não apenas entre os estudantes e o júri, mas também entre os convidados do júri.

A área onde os projetos deveriam ser inseridos é uma área rica e complexa ambientalmente. Definida ao norte pela usina da Usiminas e ao sul pelo rio Piracicaba, afluente do rio Doce, todos os grandes vazios compreendidos nesse intervalo apresentam empecilhos ambientais: matas secundárias, várzeas do rio Piracicaba, lagoas intermitentes, olhos d’água, e a própria margem do rio. Dessa forma, os projetos se viram diante de uma dificuldade que forçou a convergência da projeto de grandes prédios impactantes (hotéis, shoppings, clínicas de saúde, edifícios residenciais, etc) em áreas onde essa inserção deve acontecer, necessariamente, com o conhecimento prévio da legislação ambiental – uma legislação genérica que cada vez mais se sobrepõe às leis de uso e ocupação de solo. A quase “revolução ambiental” em curso no Brasil, que está gerando tramitações de projetos muitas vezes kafkanianas em órgãos ambientais, foi então trazida para dentro do Estúdio criticamente (7).

Mesmo conscientes dos efeitos colaterais desse tipo de abordagem (clientelismo, cerceamento de projetos menos engajados na realidade local, oportunismo de mercado ligado a projetos acadêmicos), acreditamos que a mentalidade do arquiteto-passivo deve ser revelada e criticada já na escola. Assim, o Estúdio VII é uma disciplina de projeto que reflete essa intenção de esclarecer o mercado profissional dos arquitetos; uma disciplina que poderíamos resumir em três atitudes: elogio da postura do arquiteto-articulador de intervenções que se contrapõe frente ao papel sempre reativo (e não ativo) do arquiteto; suporte à postura do arquiteto-ambientalista que precisa dominar as leis que regulam a aprovação dos grandes projetos de arquitetura e urbanismo; e busca de uma aproximação crítica entre mercado e universidade (8).

Notas

1 DELEUZE, Gilles. “Mediators”. In: Incorporations, Zone Books, Nova York, 1992

2 Brett Steele, atual director da Architectural Association de Londres, publicou o excelente artigo “BrandSpace: Design ®esearch and Product Placement” na (extinta) revista Archis nº1/2001; onde as estratégias da publicidade são consideradas um dos principais motivos do triunfo da arquitetura moderna, e onde o próprio Brett abusa da linguagem publicitária por meio de slogans bombásticos: “Advertising is the world’s most perfect surface. StarbucksTM is the ultimate Miesian space”.

3 CANÇADO, Wellington: Lugares-Comuns Classificados, tese de mestrado, EA-UFMG, 2002. O autor inicia a tese não só questionando os conceitos de arquitetura empregados no país, mas quase que os inverte para ampliar o espectro de seu estudo: “A questão colocada da ‘extinção’ da arquitetura brasileira pode ser abordada de várias formas, mas a principal tomada aqui como hipótese é de que o que se espera (críticos, arquitetos) chamar ou reconhecer como arquitetura, não somente e obviamente não se extinguiu misteriosamente no século passado como nunca foi tão potencialmente construída, disseminada e consumida; mas pelo fato de exigir conceitos, definições e parâmetros que não os modernistas ortodoxos, e por violar os principais requisitos das normas de ‘etiqueta’ modernas, essa arquitetura é alijada completamente do universo oficial arquitetônico.”

4 O caso de Artacho Jurado (para a crítica Hygina Bruzzi, Cristian de Portzamparc é uma versão contemporânea de Artacho!!!) é um exemplo do puritanismo dos críticos, para os quais é melhor mantê-lo excluído da lista dos nomes geralmente aceitos.

5 KWINTER, Sanford; CRARY, Jonathan (org.): Incorporations, Zone Books, Nova York, 1992.

6 As reações de cada um dos atores convidados foi mais ou menos previsível: a prefeitura, mais interessada nos projetos que apresentavam boas contrapartidas para a cidade; a Usiminas, proprietária dos terrenos, às vezes chocada, às vezes surpresa com as idéias apresentadas para suas propriedades; e um empresário na maior parte das vezes descrente do valor mercadológico das propostas, mas também entusiasmado com os poucos projetos de potencial de mercado mais explícito.

7 Nesse sentido, a presença de Cristiano Otoni, arquiteto com larga experiência em desenvolvimento de projetos para órgãos ligados à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (FEAM, IGAM, IEF, etc.) dentro do quadro de professores do Estúdio foi fundamental. Conforme a etapa de projeto, Otoni funcionava ora como um fiscal do poder público que apontava problemas de projeto baseado em restrições ambientais, ora como um consultor de projeto que assumia a função de defender os estudantes frente às instâncias ambientais competentes que estariam eventualmente analisando o projeto.

8 Então ao lado de Wellington Cançado na disciplina Estúdio VII, hoje somos ex-professores do UnilesteMG. E desde 2008, meu escritório Vazio S/A Arquitetura e Urbanismo passou a desenvolver, – paralelamente a projetos públicos, concursos e pesquisas – projetos onde acumulamos a função de arquitetura e incorporação de edifícios; uma acumulação de responsabilidades hoje praticada por outros escritórios de arquitetura de Belo Horizonte como M3 Arquitetos e 1/1 Arquitetura.

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