Possibilidade dos vazios: a terceira ponte de Lagos – Vazio S/A

Poucos espaços são mais impactantes que os baixios da Terceira Ponte Continental (Third Mainland Bridge). Mas esse tabuleiro tem algo de bastante particular: ele fica a apenas 400 metros de Makoko, a favela flutuante que virou notícia com a Makoko Floating School, do arquiteto nigeriano Kunlé Adeyeme. Pode o futuro de Makoko estar em serviços construídos sob essa ponte?


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Makoko fica no centro de Lagos, capital da Nigéria — hoje o país mais populoso da África — e tem uma população aproximada de 100 mil moradores. Lagos tem 14 milhões de habitantes e terá muito mais: o país está crescendo a uma taxa de 3,2% por ano, o que leva a uma projeção populacional de 400 milhões de nigerianos em 2050.

Nos anos 2000 Lagos era a preferida dos teóricos do urbanismo informal, e foi nessa onda que veio a pesquisa do escritório de arquitetura OMA no livro Mutations (2000) e o volume  Under Siege: Four African Cities (2002), que fez parte dos estudos preparatórios da Documenta de Kassel em sua 11ª edição. Mas a favela continuava desconhecida pelo pequeno mundo da arte e arquitetura ocidentais até 2013, quando o arquiteto nigeriano Kunlé Adeyeme alcançou um repentino reconhecimento internacional com sua escola flutuante em forma de prisma triangular. Vinda de um continente que raramente emite sinais na mídia arquitetônica internacional, era uma notícia carregada de otimismo e também muito oportuna: logo antes, a Lagos Stake task force havia demolido parte das casas “ilegais” de Makoko, num incidente em 2012 que demonstrou a vulnerabilidade da comunidade perante as instituições da cidade.

Infelizmente, o projeto não durou tanto quanto poderia: o barco naufragou depois de uma tempestade em junho de 2016. Noah Shemede, professor responsável pela administração e operação da escola, afirmou a revistas e jornais que o projeto não era seguro e que por questões de segurança preferiu retirar seus alunos do barco, o que ocorreu três meses antes do acidente. Para Phineas Harper, diretor da Architecture Foundation de Londres, “caímos numa armadilha de relações públicas baseada nas fotografias sensuais de Iwan Baan e em publicações respeitáveis, mas sem os recursos necessários para investigar adequadamente suas características”. Em resposta, Adeyemi disse que a escola foi desativada após três anos de serviços bem-sucedidos para dar lugar a uma versão otimizada, que a manutenção recomendada pelos arquitetos não foi atendida pela administração, e que o protótipo estava fora de uso havia três meses em antecipação à sua reconstrução.

Um fato menos sujeito a disputas é que Makoko tem dois vizinhos dignos de nota: 15 km ao sul está o gigantesco canteiro de obras de Eko Atlantic, uma bairro sustentável anunciado orgulhosamente como a “Dubai da África” e que, quando pronto, vai abrigar 250.000 habitantes que estarão perto do centro da ilha mas longe dos problemas vividos pelos outros lacobrigenses. O terreno de Eko Atlantic não existia: tudo está sendo construído sobre um aterro no Atlântico de 100 hectares ha. via uma parceria público-privada que envolve construtoras chinesas, consultores dinamarqueses e incorporadores libaneses. Será uma cidade limpa e eficiente que  produzirá emissões mínimas de carbono, oferecerá empregos, prosperidade e novos terrenos, e servirá como um baluarte na luta contra os impactos da mudança climática. Uma “futura Hong Kong da África”, antecipa o diretor do Banco Mundial na Nigéria, apesar da hiper-densidade de Hong Kong não ser propriamente uma referência de cidade sustentável. Mas como se sabe, na Lagos de congestionamentos quilométricos há pouco emprego e milhões trabalham na economia informal. Sessenta por cento da população vive com menos de um dólar por dia, doenças evitáveis ??são comuns, e energia elétrica e abastecimento de água contínuos não são serviços encontradiços nos bairros pobres.

Bem à frente de Makoko – são só 400 metros –, fica a Terceira Ponte Continental (Third Mainland Bridge), uma via movimentada que conecta a ilha ao continente e por onde circulam aqueles que vão do aeroporto para a ilha de Lagos. Por isso é certo que todos os turistas e viajantes passam em frente a Makoko, que desfila suas palafitas de madeira, seus barcos e barracos para uma plateia de motoristas apressados antes destes chegarem ao continente ou às cancelas da Dubai africana.      

Talvez uma outra oportunidade, tão inusitada quanto a escola de Kunlé, esteja sob as oito pistas do tabuleiro da Terceira Ponte. Larga, monumental e muito mais sólida que a pequena embarcação da escola flutuante, essa estrutura brutalista poderia servir de teto não apenas para novas escolas, mas também para centros comunitários, quadras esportivas, praças cobertas e quaisquer outros equipamentos que compensam a absoluta falta de serviços públicos de Makoko. Nem todos, mas uma boa parte dos habitantes mora em casas palafitadas organizadas como uma vila lacustre que não para de crescer em direção à lagoa. Mesmo que o uso do tabuleiro seja visto menos como oportunidade e mais como um problema, o fato é que este crescimento está perto de alcançar a Ponte.

É bem provável que essa proposta sob a Terceira Ponte seja só mais uma fantasia ingênua, um capricho dos que não compreendem o mar de impossibilidades que cerca a extrema pobreza — mas é menos absurda que Eko Atlantic. O governo constrói Eko enquanto demole favelas, alardeando-as como reduto de criminosos. Parece que os pobres marginalizados extramuros são uma justificativa para erigir uma cidadela fortificada, mas os nigerianos têm problemas mais urgentes: a ameaça real da mudança climática, o nível d’água crescente dos oceanos e, principalmente, a explosão populacional: estatísticas prevêem que dentro de apenas quinze anos a população de Lagos terá dobrado, e seus novos 14 milhões de habitantes não vão morar em Eko.

Fotos: CE Blueclouds Photography (1,2), Yann Arthus-Bertrand/Getty Images (3).

 

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