O Rigor do Vazio – Vazio S/A
O Rigor do Vazio
12/11/2005

Escrito pelo arquiteto e pesquisador da Universidade de Michigan Fernando Lara, esse texto apresenta a Casa Vila del Rey e foi publicado na última edição da revista argentina “30-60 – Cuadernos Latinoamericanos de Arquitectura.”

Fernando Lara (1)

“ao contrario da complexidade dos cheios, os vazios são simples”

Carlos Teixeira, Em Obras, p. 277 (Cosac & Naify, 1999, 342p).

Como gancho para começar a analisar a Casa Vila del Rey de Carlos Teixeira eu poderia dizer que tudo que se faz hoje no Brasil referencia, de um modo ou de outro, a tradição moderna que encantou o mundo nos anos 50. Ou poderia argumentar que a crise da chamada década perdida (os anos 80), jogou para o alto todos os valores arquitetônicos e limpou o caminho para a invenção de uma arquitetura absolutamente desligada da geração moderna. Ou poderia ainda mesmo dizer que tudo que sobrou do modernismo brasileiro foi uma imagem esvaziada de seus princípios transformadores ou geradores de uma identidade. Mas nenhum desses argumentos me convence e eu prefiro acreditar numa combinação de tradições e deslocamentos que coloca Carlos Teixeira um passo a frente deste debate. Arquiteto, designer, autor, crítico, Carlos Teixeira é um dos poucos que consegue combinar múltiplos campos de ação com um raro rigor. Em seu livro “Em obras: historia do vazio em Belo Horizonte” Teixeira faz uma leitura da cidade onde vive e trabalha a partir da falta, da ausência, do que não foi feito, do que não foi desenhado.

E diante da Casa do Vila del Rey, contemporânea do livro em questão, me parece que o tema do vazio carrega diversas chaves para o entendimento do projeto. Sinônimo de espaço, o vazio como forca motriz de desenho traz, no caso das obras de Teixeira, um rigor capaz de manter a coerência mesmo diante dos inevitáveis contratempos do laborioso processo de construção. Como oposto daquilo que é matéria, inverso do envelope, o vazio nos diz do espaço habitável. Que ironicamente deixa de ser vazio ao ser vivido. O vazio seria então a premonição ou antecipação deste espaço. Ou seja, o vazio como estratégia é o próprio projeto, o desenho de um espaço futuro.

E são vários os vazios a que a Casa Vila Del Rey se refere. Ao vazio da paisagem de baixa densidade ao redor a casa responde se afastando da rua, tanto horizontalmente ao se implantar na segunda metade do terreno e de forma diagonal, quanto verticalmente uma vez que o piso da entrada se situa 8 metros abaixo da rua. Chega-se a ele por uma combinação de rampa e escadas em linha reta. Aos poucos a casa se revela para o visitante como uma caixa levemente flexionada e bastante transparente com 6 grandes janelas de 4 por 3 metros que se voltam para o sul. Durante o dia pode-se ver a paisagem do vale através da casa, ou seja, ao vazio da paisagem a casa responde com gentileza, fazendo-se quase invisível do ponto de vista do espaço publico da rua. E assim sendo parece mais vazia do que realmente é.

Em termos formais a casa revela um cuidadoso e rigoroso trato de um volume flexionado e recortado sem nunca perder a unidade. A leve inflexão da fachada principal parece reagir ao visitante, enfatizando a portada principal como resultado de uma forçada invasão. Mas passa-se ao interior e o visitante-invasor é premiado com uma visão quase que completa do volume interno da caixa, no qual os planos suspensos pela estrutura de madeira laminada colada individualizam as varias funções. Na entrada o estar e o escritório, abaixo no piso térreo o comer e cozinhar, acima os quartos de dormir do menino e do casal.

Se de longe a casa dava impressão de invisibilidade pela generosidade das aberturas e transparência luminosa, de perto a realidade é mais palpável, mais pesada. O concreto não-acabado do arrimo ao longo da cozinha e da estrutura da fachada principal tem sua materialidade exacerbada pelas expostas amarras da ferragem. As paredes laterais (uma delas pintada de um vermelho intenso) forçam uma leitura unificada do volume interno. Como que respondendo a uma outra lógica formal independente, a estrutura de madeira laminada colada suporta os planos que vão ocorrendo a meio-nível um do outro. Desde o rés-do-chão da cozinha e do espaço de refeições vão se articulando em meio-níveis o escritório, o hall de entrada, o quarto do menino e o quarto do casal mais ao alto. Como que soltos no vazio interior da casa (apenas algumas faces destes planos tocam os limites da caixa), os espaços vão sendo definidos pela escada, pela posição dos banheiros, ou não definidos de maneira alguma. No quarto do casal, um grande plano móvel vertical abre-o ou fecha-o para o resto da casa, como uma parede-guilhotina. A mesma estrutura que sustenta os diferentes planos se transborda para a face norte da edificação, servindo de sombreamento e moldura da paisagem do vale que se descortina a partir do deck. Referencia quase explicita ao modernismo de Niemeyer o deck serpenteia por cima de um segundo volume, parcialmente escondido onde se localizam as áreas de serviço, atelier e laboratório fotográfico.

Mas se o deck faz uma referencia direta a arquitetura da Pampulha dos anos 40 que se tornou hegemônica na década seguinte, a Casa do Vila del Rey dialoga com o modernismo brasileiro muito mais pela já falada lógica do vazio, da falta. Tudo o que ela tem de melhor e mais desenvolvido é o contrario do que tornou famosa a arquitetura moderna brasileira. A forma é rigorosa e sólida, o contrario da leveza e da permeabilidade de Niemeyer. O acabamento é propositadamente tosco, revelando a superação do complexo de inferioridade brasileiro em relação a carência de industrialização dos componentes ou a frustração de uma mão-de-obra pouco qualificada. Na casa do Vila del Rey a grossura dos detalhes de encaixe concreto-madeira feitos de chapa dobrada e parafusos, ou a intencional permanência dos fios de arame visíveis no concreto armado demonstram que a falta é parte integrante do processo de projeto. Como num texto do próprio Carlos Teixeira que enaltece as qualidades estético-formais-sociais do capim, erva vulgar brasileira que persiste e insiste em todos os terrenos, o inacabado passa a ser absolutamente belo quando assumido. Mas nem tudo é não-acabado e o melhor da casa está na estrutura de madeira laminada colada que sustenta e amarra toda a caixa volumétrica. Tecnologia ainda incipiente no Brasil, apesar de produzirmos (e desperdiçarmos em forma de serragem e fragmentos) enormes volumes de madeira bruta, o uso da madeira laminada colada inaugura uma possibilidade construtiva absolutamente coerente com o manejo sustentável das áreas naturais e as possibilidades digitais de projeto e fabricação da edificação. Na Casa do Vila del Rey, a tecnologia da madeira laminada colada alem de sobrepor precisão high-tech à rugosidade do concreto e dos detalhes de encaixe, dialoga também como o modernismo brasileiro pela mesma lógica da falta e do vazio. Se a maior critica a respeito da arquitetura moderna brasileira apontava para uma exuberância formal casada com baixo desenvolvimento tecnológico, a Casa do Vila del Rey responde a esta questão com precisão: refinamento tecnológico, rigor formal e discrição.

(1) Fernando Lara e arquiteto, pesquisador da arquitetura brasileira e atualmente assistant professor na University of Michigan, EUA. ferlara@umich.edu
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