“Investimento” nas favelas – Vazio S/A

A mais nova política de intervenção em favelas no Rio de Janeiro: construção de um muro de três metros de altura para “evitar sua expansão”. Wellington Cançado, arquiteto e co-organizador do livro Espaços Colaterais, comenta a notícia.

O muro

Wellington Cançado

“Rio inicia obras de muro ao redor de 11 favelas da Zona Sul, área nobre da cidade.
(…)
Estado alega que objetivo é evitar expansão de moradias em áreas de vegetação; locais escolhidos, porém, cresceram abaixo da média em comparação às demais comunidades”.

(Folha de São Paulo, 2/4/2009)



R$ 40 milhões, 11 mil metros lineares, 3 metros de altura: indiscutivelmente uma das maiores obras de “arquitetura pública” dos últimos tempos. Não somente no Rio de Janeiro, mas no Brasil. Aproximadamente R$ 3.600,00 por metro linear ou R$ 1.200,00 por “metro quadrado”. O equivalente ao padrão “Alto” de acabamento para “Residência Unifamiliar” no Rio de Janeiro, segundo o CUB (Custos Unitários da Construção) de fevereiro de 2009. Praticamente um terço a mais que o padrão “Normal” para “Prédio Popular” estipulado em R$ 965,72 e que o padrão único para “Residência Popular”. Praticamente duas vezes e meia o valor calculado para “Projetos de Interesse Social” (sabe-se lá o que isso quer dizer) estipulado em R$ 583,50.

Entretanto, todo esse dinheiro não será destinado para mudar o padrão das precárias moradias das favelas, nem muito menos para a construção de outras novas de “Alto Padrão”. Também não será utilizado na proposição de habitações populares em edifícios centrais desocupados, nem na urbanização de áreas da cidade historicamente esquecidas, nem para construção de novos equipamentos, espaços públicos, bibliotecas e jardins nas periferias, nem na expansão e melhoria do patético sistema metropolitano de transportes (um dos piores do mundo!), nem mesmo investido na segurança pública, e muito menos servirá para implementação de qualquer projeto realmente transformador da realidade cruel daqueles que paradoxalmente têm as melhores vistas da “Cidade Maravilhosa”.

Tanto tijolo e cimento para proteger a natureza das mazelas da cidade que o poder público incapaz de enfrentar, prefere esconder atrás de um muro. Ou melhor, vários “ecolimites”, como foram batizados pelos propositores. Afinal, “o desmatamento é ruim para todos” nos alerta o presidente da Emop (empresa pública estadual responsável pelas obras nas favelas) e defensor do muro como estratégia “ecológica”. Nesse caso, brevemente seremos obrigados a murar praticamente todo o território nacional. Ou a parte que resta murar ou desmatar. A começar pela amazônia e demais ecossistemas ameaçados diariamente pela urbanização extensiva, pela grilagem e pela ganância desnaturada.

Obviamente não se trata de discutir seriamente se o muro em volta das favelas cariocas é mesmo a solução adequada para barrar o crescimento explosivo e desordenado das metrópoles brasileiras e proteger áreas naturais remanescentes. Mas de perceber como toda uma retórica política oportunista e perversa se apropria dos discursos concensuais contemporâneos e explora as mazelas e os preconceitos nacionais mais arraigados, para levar adiante projetos autoritários, interesseiros e de constitucionalidade discutível em nome da democracia e da preservação ambiental.

Mas que democracia é essa em que obras fascistóides sugam o dinheiro público para atender aos interesses mais excusos? E se da noite para o dia um monumento monstruoso é erguido re-cindindo a Cidade Partida, sem que ninguém tenha sido consultado pública e anteriormente? Como podemos ser tão tolos de deixar o futuro ser governado a nossa revelia por meia dúzia de engravatados? Como pode ser que a eterna falta de recursos e a constante preguiça política brasileira, de repente se transformem em determinados 40 milhões para salvar a natureza urbana? E que idéia é essa que temos ou que querem que tenhamos da natureza, em que não estamos, os humanos, inseridos?

Uma idéia modernamente utópica obviamente, assim como todas as demais que regem a engenharia-política nacional, mas poderosamente atualizada em sua instrumentalização pragmática. Porque afinal e obviamente não se trata de cercar a natureza, o “vazio”, mas sim de isolar e imobilizar os que estão do lado “de dentro” do muro, e que até ontem estavam do lado de fora deste enorme condomínio privativo que se tornou a cidade “formal”. E se a natureza já não passa de uma idealização abstrata e instrumentalizada ao extremo para fins nunca declarados, a proposta do muro cabralino soa oportunamente útil aos interesses de rapina de empreiteiros, corretores de imóveis e síndicos de Zona Sul.

Entretanto, o “meio-ambiente”, ao contrário do que gostariam o governador do Rio e seus asseclas, começa no interior de cada casa da favela, cada cobertura de Ipanema, cada quintal da Baixada e de cada duplex da Barra, indiscriminadamente. E não do outro lado do muro. Meio-ambiente inclusive, que nas práticas e políticas públicas atuais deveria também ser lembrado na hora de canalizar córregos, cobrir rios, poluir praias, asfaltar mangues e muitos outros projetos estatais equivocados e predatórios.

Muros, teoricamente separam inimigos, isolam prisioneiros, dividem nações, repelem imigrantes, escondem vizinhos indesejados e agora, sabemos, protegem a natureza dos homens (os pobres, claro). Muros são metáforas usuais da divisão pseudo-ideológica da política tupiniquim e gestos concretos pouco eficazes. Afinal, criminosos saem pela porta da frente de presídios de segurança máxima cotidianamente e ao redor destes mesmos edifícios milhares de sem-casa se apropriam do muro para apoiar suas précarias estruturas e alí fundarem novos lares-cidades. E enquanto isso, nos bairros tradicionais servidos pelos arrastões de vans, muros altos permitem aos saqueadores a privacidade necessária à sua atividade seletiva; e na imaginária cartografia global, estas estruturas não passam de obstáculos olimpícos em escala geográfica desafiando obstinados atletas do Sul.

Muros, são, em tempos em que as utopias estão todas construídas na Barra da Tijuca, e que o paradigma espacial contemporâneo é a ilha, a expressão tectônica dos nossos valores. Solução imediata aos inúmeros conflitos sócio-espaciais e arquiteturas em estado puro: “protocolos de acesso” que delimitam os territórios disciplinares necessários à manutenção da “ordem e progresso”.

Mas em uma época em que os arquitetos e planejadores desistiram covardemente de enfrentar a realidade, políticos resolveram descaradamente usurpar o interesse público e que a sociedade cambaleia zonza na fronteira tênue entre o real e a ficção, os muros felizmente explicitam os limites da nossa débil ecologia cotidiana.

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