Enxertos Arquitetônicos, entrevista – Vazio S/A

O jornal Hoje em Dia publicou entrevista com Carlos Teixeira sobre os projetos do Vazio S/A; mais especificamente, sobre o projeto Enxertos Arquitetônicos. Publicada em 29/11/2008

Jornal HD_Muitas pessoas dizem que a arquitetura tem, muitas vezes, seu papel
reduzido pela importância que tem na vida das pessoas. Segue mais ou menos
esse raciocínio esta sua idéia de aproveitamento dos espaços ociosos das
cidades?

Carlos Teixeira_Cidades pouco planejadas têm enormes vazios que poderiam ser ativados (ou submetidos a) uma ocupação mais racional. Esse é o caso das grandes capitais do Brasil: elas cresceram sem planejamento, criando assim ‘vácuos’ entre bairros, lotes vagos em bairros centrais, e outras áreas que poderiam ser usadas, mas não o são. O tema dos vazios urbanos está ligado a esta preocupação cada vez mais presente na agenda de arquitetos e artistas contemporâneos: um vazio que eu associo à idéia de otimismo, a novas possibilidades de se pensar a cidade, ao potencial que é típico de cidades que ainda estão em processo de crescimento. Cabe a nós enxergar soluções para a condição fragmentada das nossas cidades – sem com isso copiar modelos de outros países ou repetir fórmulas já ultrapassadas.

HD_Antigamente, as cidades tinham praças e era lá que as pessoas se
encontravam, namoravam etc. Hoje não há mais isso, a não ser em cidades
muito pequenas. A violência está mudando o jeito de fazer arquitetura?

CT_O mundo mudou, e o uso dos espaços públicos também, especialmente nos países mais jovens, de culturas menos arraigadas. Infelizmente, no Brasil a violência é uma preocupação maior do que qualquer outra, o que dificulta qualquer política que busque uma volta das pessoas às praças e às ruas. Todos querem mais é erguer muros; vamos todos passar os sábados dentro de um shopping. Estamos nos tornando ‘prisioneiros voluntários’ dos shoppings e condomínios, enquanto as favelas – apesar das várias políticas de transformá-las em bairros formais – tornam-se impenetráveis para o resto da cidade.

HD_Vc acha que os shoppings podem substituir as praças? Acha que estão
cumprindo esse papel?

CT_Hoje, a ambição dos condomínios é crescer ao ponto de se tornaram quase que auto-suficientes. Crescem pela cidade com impressionante rapidez, brotando por todos os cantos com o objetivo não declarado de tornar o resto da cidade obsoleto. É como se seus moradores tivessem definido uma comunidade de auto-exilados que imigrou sem mudar de cidade; moradores que fizeram uma opção pela “rendição” ao condomínio numa época em que várias cidades têm mesmo perdido a capacidade de juntar pessoas.

HD_O que pensa dos condomínios fechados? Há quem diga que são guetos que
só fazem aumentar e acirrar as diferenças, além de não preparar as
crianças para conviver com quem é diferente da sua turma.

CT_Não sei se há lugar mais falso que locais que tentam reproduzir a diversidade urbana. As ruas com pedestres, as esquinas, os prédios no alinhamento da calçada, os carros, o transporte público eficiente – todos definem uma idéia de centro que ainda corresponde às áreas mais nobres e valorizadas das cidades européias – o centro histórico, que, por aqui, são áreas decadentes. As americanas são mais subúrbios que cidades – os americanos são um povo suburbano –, com suas casas de madeira perdidas num mar de mesmice. E as brasileiras se tornaram enclaves cada vez maiores onde, para usar uma imagem exagerada, as pessoas vão de um enclave a outro, ignorando os espaços entre esses enclaves, sem experimentar e vivenciar a riqueza que uma cidade poderia propiciar.

HD_Pela sua experiência, diria que são muitos os espaços ociosos nas
grandes cidades? Dê exemplos?

CT_Viadutos, por exemplo, são enormes devoradores de espaço. Em cidades planejadas para o automóvel como Los Angeles, mais de um terço da mancha urbana é consumida por vias expressas, e dois terços do seu centro são ocupados por ruas, passagens livres, estacionamentos e garagens. No Brasil, os viadutos são quase sempre monstros urbanos que não guardam nenhuma ligação com a cidade e, por isso, são também grandes desestruturadores de quarteirões e bairros. Geralmente, as áreas no entorno e sob viadutos são invadidas devido à ausência de controle das administrações públicas e com dificuldades de planejar a cidade frente às pressões cada vez maiores do crescimento da cidade informal. Foi por isso que, junto a uma equipe da associação Arquitetos sem Fronteiras e da PUC-Minas, desenvolvemos o projeto “Baixos de Viadutos”, onde lançamos um plano para usar essas áreas ociosas e nunca vistas como locais com potencial de ocupação planejada. Estas são as áreas ao longo dos quinze quilômetros de extensão da Via Expressa Leste-Oeste.

CT_Em BH, por exemplo, em que espaços ociosos vc gostaria de interferir?


HD_O outro projeto que poderia citar é um projeto feito com o grupo de teatro Armatrux, no qual utilizamos espaços residuais como palco para a peça Nômades. Vários dos prédios residenciais do bairro Buritis, um bairro montanhoso na zona sul, foram projetados com enormes (e horrendas) “palafitas” que os sustentam, ficando esses paliteiros de concreto sem qualquer utilização. Construções onde as palafitas têm a mesma altura ou mesmo são mais altas que o prédio que sustentam são elementos comuns naquela paisagem de prédios marcados pela falta de uma boa relação entre terreno e prédio e, sobretudo, pela falta de imaginação de seus arquitetos. Foram nesses vazios que nós – o grupo Armatrux e meu escritório, Vazio S/A – realizamos a intervenção arquitetônica Amnésias Topográficas, que transformou o que antes era um espaço subutilizado e com aspecto de depósito de entulho em um espaço único, onde arquitetura, paisagismo, e recuperação ambiental se misturaram e funcionaram como a cenografia da peça. Mas acho também que a idéia de vazio pode estar em qualquer arquitetura que surpreenda e seja capaz de criticar e elogiar a cidade, ou, mais simplesmente, uma arquitetura que vá alem da poesia piegas e da previsibilidade do mercado imobiliário. É o que sempre procuro fazer para meus clientes.

HD_Vc foi premiado na Áustria com um projeto que propõe o aproveitamento
de árvores para construir equipamentos, digamos, de convivência. É isso
mesmo?

CT_De um modo geral, essas árvores servem como “corpos” para vários “dispositivos protéticos”. Foi um projeto que desenvolvi aos poucos, ao longo dos últimos anos. A princípio, eram só dois ganchos para rede aparafusados em dois troncos de árvore – a banal idéia de montar uma rede entre duas árvores. Tempos depois, barras rosqueadas, porcas e arruelas foram adicionadas, perfurando os troncos e servindo como suporte de vasos para bromélias. Outros suplementos sintéticos incluem uma estante para samambaia engastada em uma árvore, uma mesa e um banco. A estante e a mesa consistem, cada qual, em tampos de vidro que descansam em bases de metal aparafusadas nas árvores.

HD_Como chegou nesta idéia dos enxertos arquitetônicos?

CT_Vejo, no paisagismo, uma ferramenta para recuperamos a natureza, porém como uma recuperação sempre crítica em relação às limitações orçamentárias e à condição do mundo de hoje. A

natureza obviamente não é mais virgem; ela já foi contaminada e misturada junto a tudo que é artificial. Acredito que são nos diálogos ruidosos entre artifício e natureza que está o futuro da arquitetura e do paisagismo – e não na mera naturalização da arquitetura. Enxertos Arquitetônicos é um projeto que vê a natureza como algo que reage contra essas agressões com crescimento e rejeição – simultaneamente. Conflitos que podem gerar novas tipologias de design; os enxertos sendo um iniciador de outras paisagens ambíguas.

HD_Como não estragar as árvores?

CT_Na verdade, acho que as arvores podem ser danificadas. Vejo certas destruições da natureza como imagens sedutoras, como uma forma de comentar a fragilidade da natureza frente o crescimento avassalador das cidades. Uma prótese em uma árvore pode ser vista como uma intromissão obscena e ambígua, porem não menos obscena e ambígua que qualquer construção. Hoje é fundamental vermos o mundo com a sensibilidade de um ambientalista, mas também devemos aceitar que nada será como antes.
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