A mutilação do Parque Municipal – Vazio S/A

O arquiteto Roberto Andrés é colaborador do jornal Hoje em Dia. Publicado em março de 2009, o texto abaixo comenta a absurda história do Parque Municipal; o principal parque de Belo Horizonte cuja área foi reduzida a menos de 1/3 de seus 62 ha. originais.

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Devolver o Parque à cidade

Roberto R. Andrés

O Parque Municipal era o principal elemento verde no plano original de Belo Horizonte. Localizado em ponto central, na confluência de três importantes avenidas, possuía uma área de 62 hectares que correspondia a 1/14 da área total da cidade. Era um latifúndio verde em uma capital pequena: um dos maiores parques urbanos do país inserido em uma cidade que foi inaugurada com meros 25.000 habitantes.
Em um movimento inverso ao crescimento da cidade, o Parque teve uma história de sucessivas subtrações de áreas, transformadas em ruas e edifícios. Carlos Teixeira* narra, em seu ‘História do Vazio em Belo Horizonte’, este vagaroso processo de mutilação do Parque Municipal: de 1906, quando se retirou a primeira fatia para construção da Diretoria de Agricultura, até 1975, quando o tombamento Estadual impedia novas interferências, o parque foi reduzido a menos de terça parte de sua área original, chegando a 18 hectares.
Lembre-se que o Parque original atenderia a uma cidade que, estimava-se, chegaria a 100 mil habitantes em 100 anos – hoje ela já possui mais de 2,5 milhões. Mesmo considerando que a cidade se expandiu para além do limite original e que outras áreas verdes foram criadas, fato é que a região central possui cerca de 10 vezes mais habitantes que no início, enquanto o Parque encolheu em 3 vezes. É esta a herança que um século de governos ‘progressistas’ nos deixou: a substituição das áreas públicas por edifícios, do verde pelo cinza, do fresco pelo quente, do lazer qualificado e generoso pela saturação de pedestres e veículos.

A devolução
Cabe ao poder público imaginar e executar ações que ampliem efetivamente a área verde no centro. Ações que ofereçam possibilidades de lazer, reduzindo também a temperatura e melhorando a qualidade do ar. A fim de contribuir para tal empreitada, apresentarei uma proposta de pulverização verde em Belo Horizonte.

Existe, no centro da cidade, um grande número de terrenos ocupados para estacionamentos de
veículos. Um levantamento recente, feito pelo arquiteto Luiz Felipe Farias**, aponta que, só no Hiper-Centro, eles ocupam uma grande área. Estes estacionamentos são, quase todos, lotes vagos com o piso pavimentado e algumas partes cobertas. Poucos possuem vegetação. São vazios acimentados na cidade de cimento.

Mas podem ser transformados em vazios verdes, sustentáveis economicamente. A operação é simples: a Prefeitura desapropria os terrenos dos estacionamentos, alegando interesse público. Constrói estacionamentos subterrâneos com praças em cima. A área verde serviria à população para lazer e os estacionamentos subterrâneos gerariam recursos para o poder público. Em alguns anos, o recurso investido nas desapropriações e nas obras retornaria ao município – e a partir de então geraria lucro para os cofres públicos.



Proposta de pulverização do Parque Municipal pela apropriação dos estacionamentos no Hiper-Centro

E a cidade ganharia uma grande quantidade de áreas verdes de lazer.

Mas que não sejam as praças-monumento, feitas por arquitetos que projetam seus egos em objetos auto-referentes. Não mais a Praça da Estação ou a nova Praça que Niemeyer quer erguer em Brasília. Mas que sejam praças abertas para a transformação pelos usuários, generosas em vegetação, articuladas em relação às demandas locais. Praças que possam ter atividades, equipamentos e espécies vegetais dos mais diversos: pistas de skate, de caminhada, quadras esportivas, mesas de xadrez, bancos para se deitar, namorar, dormir, árvores frutíferas, ornamentais, pequenas, médias e grandes, brinquedos, flores e (sobretudo) acesso permitido à grama. Praças que abriguem floras coletivas, pulverizando mudas de plantas pela cidade.

Tendo sido o Parque Municipal pouco a pouco mutilado, como narrou Carlos Teixeira, talvez a melhor maneira de devolvê-lo à cidade seja assim: em pequenos pedaços fragmentados que irradiam fragmentos verdes – contagiando varandas, sacadas, telhados e empenas cegas.

Em diversas cidades há áreas comunitárias com este espírito – como por exemplo em alguns bairros ao norte de Paris. Lotes vazios foram transformados em jardins dos mais diversos, conservados pelas associações comunitárias. São lugares de repouso e, ao mesmo tempo, de cultivo e distribuição de mudas.

Um movimento internacional chamado “One Degree Less” (Um grau abaixo)*** propõe a pintura dos telhados em cores brancas ou encobrimento vegetal. Como as superfícies escuras nos telhados absorvem calor e aquecem as cidades, esta simples mudança poderia baixar em até 6 graus a temperatura média de uma grande cidade. A transformação destes estacionamentos em áreas verdes poderia ser um passo importante neste sentido em Belo Horizonte, contribuindo para a qualidade ambiental e a diminuição de gastos com climatização artificial.

Jardins Públicos no Bairro 19 em Paris. Performance realizada
pelo grupo COLOCO envolvendo a comunidade com o novo centro de arte da cidade. Trechos do
documentário interativo por Roberto Andrés.

Um convite à PBH
A gestão atual da Prefeitura de Belo Horizonte tem todas as condições de implementar propostas como esta. O Prefeito possui maioria na Câmara de Vereadores, tem cacife de bom administrador, teve ampla votação na região Centro-Sul e foi apoiado por intelectuais e ambientalistas. E demonstrou firmeza no interesse público em suas primeiras ações, quando vetou projeto de desapropriação da Vila do Acaba-Mundo, que oneraria os cofres públicos equivocadamente.
Se usar esta capacidade de articulação e administração, a Prefeitura pode devolver as áreas verdes ao centro da cidade, de maneira economicamente sustentável, qualificando as áreas urbanas e gerando empregos em um momento de crise. Fará valer a expressiva votação na região.
E se a atual gestão expandir esta perspectiva para uma série de ações que visem qualificar a vida dos cidadãos, com foco em transporte coletivo, espaços públicos de lazer e melhoria ambiental, aí fará valer os 767.332 votos e fundará um capítulo novo na história de Belo Horizonte.

Para saber mais:
* Carlos Teixeira. Em Obras: A história do Vazio em Belo Horizonte. Cosac & Naify Edições.
** Luiz Felipe de Farias realizou pesquisa sobre os estacionamentos do Centro para projeto de Graduação no
curso de Arquitetura da PUC-MG. A pesquisa foi publicada no livro Espaços Colaterais.
*** www.onedegreeless.org

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